segunda-feira, 17 de março de 2014

Black Bloc: Defensivo ou ofensivo?

     Marcados pelo uso de roupas pretas e pelo encobrimento da face, os pertencentes ao grupo do Black Bloc usam de táticas de reivindicações antigas, surgidas em 1980, na Alemanha, mas que são uma novidade nos protestos ocorridos no Brasil. Tornou-se um grupo conhecido, cuja repercussão e dinâmica podem ser equiparadas ao Anonymous, outro movimento de rede descentralizada, e que ganhou grande destaque nos protestos brasileiros, tornando-se um símbolo de luta durante a "Revolução dos 20 centavos", ocorrida contra o aumento das passagens de ônibus, em junho de 2013.
    Comumente chamados de "vândalos" são, na verdade, mais um conjunto de cidadãos insatisfeitos, buscando melhorias e reivindicando seus direitos como nacionais brasileiros. Baseados numa estrutura informal, os Black Blocs se demonstram sem hierarquia e  com poder descentralizado, tendo, em suas vestimentas, não somente a finalidade de proteção e anonimato, mas também a demonstração simbólica de que são um único e imenso bloco que atua em conjunto. Os participantes do Black Bloc se organizam, de modo geral, em pequenos grupos de afinidade que podem ou não ser organizados no momento dos protestos, atuando, sempre, de maneira independente dentro das manifestações. 
     Quanto ao seu modo de ação direta, não apresenta um padrão rígido, logo, não  deve-se acreditar na hipocrisia de que  não há, dentro destes movimentos, infiltrados baderneiros, que se aproveitam da ocasião para realizar atividades de furto, roubo e vandalismo. Uma vez que o Black Bloc deixe de ser visto como uma mera organização de vândalos, e que passe a ser analisado como o que verdadeiramente é, uma estratégia de autodefesa contra a violência policial, além de uma forma de protesto baseada na depredação dos símbolos do estado e do capitalismo, tornar-se-á mais efetivo em suas reações.
     Ao passo que as manifestações pacíficas são de agrado à população de uma maneira geral, nem sempre estas recebem a atenção do governo, todavia, em contrapartida, àquelas que optam por uma tática de ação mais direta representam de maneira enfática a revolta da população acerca de suas reivindicações, logo, atraem, com facilidade, a atenção da mídia e dos governantes.  Deste modo, o Black Bloc, apesar de ser considerado um movimento um tanto"radical", é legítimo em suas táticas, buscando, nada mais que seus direitos, e usando destes para expressar sua inconformidade.
     A democracia permite a cada um que exija seus direitos como cidadão e os deveres daqueles que são eleitos para representar o país. A forma de governo com o qual o Brasil é organizado necessita a participação do povo, assim como o voto é um direito obrigatório para os civis, também deveria ser uma regra que aqueles que fossem colocados ao poder se comprometessem a cumprir com suas obrigações.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Leitura na atualidade: superficial ou funcional?

     A era da tecnologia avança num caminho contínuo, no qual, esta torna-se cada vez mais ativa na vida da sociedade, contudo, a influência que os avanços digitais têm gerado podem ser vistos em um todo como sendo apenas positivos ou estes, como acreditam alguns mais conservadores, têm agredido os hábitos culturais da população?
     No campo de desenvolvimento educacional, especialmente se voltado para a língua portuguesa, é facilmente notável a influência gerada pela progressão tecnológica: a necessidade que a internet passa aos seus usuários de rapidez, de realizar tudo momentaneamente, levando a abreviações que, no contexto atual, já tornaram-se parte de uma nova "linguagem", a dos internautas. Porém, é necessário ponderar os julgamentos, uma vez que esta também disponibiliza uma variedade de pesquisas e leituras infinitas àqueles que a utilizam como uma ferramenta de aprendizagem.
     A cada dia observa-se o desenvolvimento das novas gerações e, com estas, as mudanças dos costumeiros hábitos das gerações anteriores, assim, por mais críticas que esta transição receba, ela é um meio necessário para o crescimento da sociedade humana como um todo. A questão da leitura tem sido alvo de muitos comentários, vez que acredita-se que esta tem se tornado mais escassa e superficial com a invasão digital no cotidiano da população. Todavia, é necessário ter em mente que este habito, ler, não se desenvolve somente por livros, vez que a internet é também uma rica fonte de informações.
     O ato de ler nunca foi algo plenamente exercido pela população, primeiramente, pela falta de acesso destes aos livros, obstáculo que foi facilmente vencido pelo arsenal de textos e arquivos em pdf que ficam disponíveis para serem baixados e lidos. E, posteriormente, pela falta de incentivo que abrange boa parte da população. De qualquer maneira, desde os tempos de outras gerações, as leituras mais complexas e longas sempre se destinavam para uma minoria populacional, e, a era atual de tecnologia não muda este fato, apenas torna o acesso menos restrito.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Trote universitário: diversão ou abuso?

   Um dos maiores motivos de comemoração durante a vida estudantil é a tão esperada aprovação na universidade desejada. Muitas festas são organizadas àqueles que conseguem passar no, as vezes tão temido, vestibular. Entretanto, em muitos casos, quando essa celebração ocorre no campo universitário, entre novatos e veteranos, o clima e o relacionamento entre estes não é tão agradável.
   A recepção aos recém-aprovados vai desde de brincadeiras mais saudáveis, que tem o consentimento do aluno que participará do trote e não envolve humilhações, ideologias machistas, sexistas ou racistas, são as tradicionais pinturas no corpo, o velho banho de lama, ou as mais recentes propostas de ações solidárias. Até aquelas em que há o abuso dos veteranos, forçando a participação dos "bichos", expressão comumente usada para se referir aos novatos, e realizando trotes que chegam a ultrapassar os limites morais, trazendo grandes consequências para os estudantes, sejam psicológicas ou físicas.
   Assim como o anti-herói Brás Cubas, personagem que evidencia seu caráter pendente à atos de "dominação" sobre os mais vulneráveis, do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, obra do autor brasileiro Machado de Assis, os responsáveis pela migração da tradição do trote se formaram em direito em Coimbra, como era comum entre membros da elite no século XIX. Assim, este ato foi incorporado às "boas-vindas" nos cursos de direito em São Paulo e Pernambuco, fazendo sua primeira, e não única, vítima fatal em 1831: o estudante Francisco Cunha e Meneses, da Faculdade de Direito de Recife.
   Persistentes até os dias de hoje, os trotes atuam sobre o pretexto de ser uma tradição que proporciona integração entre calouros e veteranos, entretanto, quando organizado de maneira ambígua, voltando-se para humilhações e constrangimentos, tornam-se um reforço à hierarquia interna da faculdade, uma relação de poder onde os estudantes mais experientes dominam sobre os novatos. Portanto, se baseados nesta visão egoísta e separatista de "sábios", veteranos, e "bichos", calouros, os trotes universitários naturalizam a violência, agredindo calouros que serão futuros agressores, gerando, sim, um castigo sem crime.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Bem-vindos a velha Roma

   Os relógios já são, diariamente, programados para reservar aquele momento especial de descanso em frente a televisão. A rotina dos brasileiros é organizada em função dos horários das telenovelas. Seja para assistir sozinho ou acompanhado, na sala confortável de casa ou numa mesa de restaurante, nenhum capítulo pode ser perdido e, se por um acaso isso ocorra, sempre é possível, sem maiores dificuldades, buscar os acontecimentos perdidos em revistas, sites da internet, ou, em homenagem àqueles que gostam de conversar sobre assuntos novelísticos, com os amigos. Uma vez que as telenovelas se tornaram um dos principais meios de entretenimento para a população, deve-se questionar até que ponto estas servem como uma mera recreação e onde começam a influenciar o desenvolvimento social e cultural da sociedade. Desse modo, as telenovelas brasileiras têm sido usadas com a finalidade de conscientização ou  apenas mais um meio de manipulação?
    Embora sejam apresentados vários problemas sociais, as novelas, que conquistaram o privilegiado horário noturno nas telas dos brasileiros, não necessariamente conscientizam a população. A dramatização Romântica e o exagero, quase que barroco, são mecanismos tão fortemente utilizados pelos produtores que chegam ao ponto de, para conseguir um enredo chamativo e cativante, ultrapassar a linha entre os acontecimentos lógicos e a irrealidade. Esta, não no sentido de  apresentar uma alusão folclórica ou mítica, cercando assuntos que, muitas vezes são corriqueiros e polêmicos entre as pessoas, tais como fantasmas, clones, e magia, mas sim no sentido de transcender as próprias leis humanas, chegar a fatos absurdos que passam, muitas vezes, despercebidos pelos telespectadores que têm sua atenção desviada para os temas de maior controvérsia, seja a mulher que traiu o marido, o vilão que foi pego ou que obteve sucesso, a vingança bem sucedida, a briga, ou até mesmo uma personagem em especial.
"Não penso. Não existo. Só assisto."
     Em realidade, as telenovelas poderiam, se utilizadas da maneira correta, sim, ser um bom veículo de conscientização, especialmente devido a sua alta repercussão. Porém, com toda a overdose melodramática que apresentam, estas ficam cada vez mais próximas de um meio de alienação, assemelhando-se com a velha política de pão e circo, fundada, oficialmente, pelos líderes romanos, que a utilizavam para lidar com a população em geral, mantendo-a fiel à ordem estabelecida e conquistando seu apoio.  A ideia em que essa política se baseava consistia, basicamente, no ato de desviar a atenção da população dos núcleos principais, política e problemas na sociedade, para núcleos humorísticos, na época, espetáculos de gladiadores, atualmente, recursos variados, futebol, televisão, mídia. Logo, a alienação, em muitos casos, acaba tornando-se involuntária, sempre indesejada, mas que, como um tímido visitante, vai chegando aos pouquinhos e se infiltrando na consciência da população.
      Em suma, não só as telenovelas, mas também toda a mídia, foram corrompidas pela soberba e desejo de poder dos que estão no comando do Brasil. País este que, segundo a revista inglesa The Economist, é "Um país de não-leitores", tendo como um principais fatores que desencorajam a leitura o fato dos livros serem tão caros. Mas, realmente, quando comparada com a televisão, a leitura é um hábito difícil de se formar. Os livros, que deveriam ser um incentivo do governo, competem com centenas de comerciais que anunciam, todos os dias, um novo capítulo da novela. Então, o que é apresentado aos brasileiros: Pão e circo ou educação?  

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Nada se perde, tudo se transforma

     Ensinados desde o berço, os valores morais são responsáveis pela manutenção da ordem entre as pessoas, sendo impostos pela sociedade em que se vive e variando em alguns preceitos básicos de acordo com a cultura local. Independentemente de quaisquer afirmações acerca da moral e da ética, vê-se em comum a finalidade geral que pode ser definida como "respeito à vida". A consciência dos valores morais não morre e muito menos pode ser destruída, ao passo que é moldada conforme as necessidades e influências do convívio com os demais grupos sociais, uma vez que a vida não é individual, mas sim coletiva, dependente de outras.
     Passados de geração em geração, os princípios da moralidade, ou a sua falta, são evidenciados em atitudes diárias do cotidiano. Esse é provado através de escolhas, boas ou ruins, pensadas ou impulsivas. Segundo Immanuel Kant, o homem é um ser que se auto-regula a si mesmo e que se auto determina em liberdade, tendo poder absoluto sobre si e sendo, ao mesmo tempo, Legislador e Súbdito, assim, observa-se que, segundo o filósofo, o próprio ser humano delimita sua liberdade através da Razão e tem por juíz a sua própria consciência. Contudo, na sociedade, cada ato considerado por ela impróprio é julgado e punido perante as leis sociais vigentes. 
     Uma vez que o livre arbítrio encaixou-se na humanidade, nós, seres humanos, aproveitamo-nos da autonomia de pensamento para condenar os demais antes de analisarmos nossas próprias atitudes. Logo, deveríamos agir com a inocência e honestidade das crianças, que em pequenas atitudes demonstram mais sabedoria e compaixão que muitos adultos que, por ganância, erram, roubam, enganam, e não desejam mudar. Cometem crimes como a falta de amor pelo próximo, que leva a um homicídio, ou a irresponsabilidade de dirigir alcoolizado, que coloca vidas em perigo, ou ainda a soberba e a falta de respeito, que leva a corrupção e ao desvio de dinheiro publico.
     Contudo, nós vivemos em grupos, sociedades, e por isso um erro não é exclusivamente de uma única pessoa, a responsabilidade é de todos. Se há um político corrupto, é porque o povo o colocou lá, então, convém ao povo encontrar uma solução, seja uma ONG, uma reeleição, ou maior vigor quanto a ficha limpa. Assim é a ética, um instrumento indispensável para o bom funcionamento da sociedade e integração dos indivíduos nela. Valor moral é respeito à vida, nossa e de todos.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A luz dos olhos meus

     Os olhos... Dizem que são as janelas da alma, mas talvez sejam mais do que isso, talvez também tornem-se uma vitrine do coração, um retrato, você. Quem é você? Quem sou eu? Sou tudo aquilo que me torna mais eu, sou meus olhos, assim como tu és o seu olhar. Há olhares, e olhares, aquele é simples, é fácil, é físico, este é complexo, este, é você. 
     O que teus olhos já viram, pessoas ou vidas? Como são teus olhares, positivos ou negativos? Tens esperança ou apenas vive a cada a dia? Tudo o que és hoje, é um conjunto daquilo que teus olhos já viram. Tu enxergas ou vês a vida ao seu redor? Alguns enxergam, outros veem, mas qual seria a diferença? Bem, esta é a distância entre os olhos físicos e o coração sentimental.
     Há sempre um abismo de entendimentos em um texto escrito, pois só existe o auxílio de palavras que sem os olhares, o conjunto de expressões e interações que diferenciam as conversas, permanece imutável o risco de que tal desabafo não seja lido com os mesmos sentimentos com os quais fora escrito. Bem, talvez este seja o meu desabafo e as possibilidades de entendimento estão em suas mãos, faça bom uso delas. 
   Quando a luz dos olhos meus e as luz dos olhos teus resolvem se encontrar.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

II. A chegada

   E agora o Pat vai dizer como odeia nozes. Meus pensamentos vagavam diante da conversa descontraída de meus colegas. A Olly vai mexer de leve no cabelo. Conhecia-os tão bem, e a tanto tempo, que já era capaz de prever suas reações diante de uma ou outra situação.  E agora chega a parte em que ela fala sobre o delicioso bolo de nozes que sabe fazer. Mas, afinal, qual era o sentido de tudo isso? Eu deveria sentir-me feliz, simplesmente por ter bons amigos e diversas oportunidades de uma longa conversa. Pat vai fazer aquela carinha de quem não consegue montar um quebra-cabeça complicado e sugerir um bolo de chocolate. Tudo me parecia tão entediante e monótono, como se assistisse ao mesmo filme pela quarta vez seguida. 
    Os sonhos com Len tornavam-se cada vez mais frequentes, mas a minha esperança de encontra-lo ficava cada vez mais fraca. Não sabia mais o que pensar daquilo, e não havia ninguém a quem eu pudesse contar sem passar por uma grande idiota. Olly vai rir, aquele riso delicado e alto, característico dela. Uma imagem me chamou a atenção: era uma mulher, simples, jovem, bela, mas havia algo estranho em seu olhar, ele parecia me prender numa espécie de encanto. Não havia nada de diferente nela, exceto pelo olhar, claro, mas não havia nenhuma ameaça em suas feições, ao contrário, apesar da distância de uma pequena praça silenciosa entre nós, era possível ver que seu rosto era delicado, com traços bem femininos e comuns. Pat vai começar a rir também, um riso mais grave e escandaloso. Apenas sorrio, vendo a felicidade simples de meus amigos.
  A estranha estava parava, mais a diante, ainda no mesmo lugar, nos observando atentamente. Encarando-nos. Não me lembro de onde ela veio, mas me parecia que as pessoas simplesmente não a viam. Tinha os finos cabelos louros, próximos a altura do ombro, e usava um leve vestido marrom-claro, não chamava muito a atenção, mas todos a ignoravam. Ela simplesmente aparecera, causando-me uma leve sensação de mal pressentimento. Não achei que seria adequado interromper o momento de meus amigos com minhas implicâncias infantis. Um rápido arrepiou percorreu meu corpo, assim que sustei seu olhar.
     - Anne? Você tá bem? - Ouvi a voz de Olly atrás de mim. - Parece meio desanimada hoje...
   O suave som de sua voz me retirou dos pensamentos alheios. Levei um breve segundo para me concentrar no que ela dizia e realmente entender a pergunta repentina. Virei-me para olhá-la.
    - Só estou pensando, Nicolly, está tudo bem - De repente me senti um pouco deslocada daquele lugar, minha voz parecia mais fraca e distante. Dei um leve sorriso. - Não há nada com que se preocupar. - Uma brisa tocou meus cabelos e tudo pareceu movimentar-se.
    - Mary! Ai, meu Deus! Ajudem, alguém!- Os gritos de Patrick, são a ultima coisa de que me lembro daquele dia. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

I. Os sonhos

    Caminhava calmamente, observando com fascinação a paisagem ao seu redor, não sabia onde estava e muito menos como havia chego até ali. O lugar revelara-se encantador e sombrio ao mesmo tempo, um paradoxo perfeito entre a realidade e os sonhos. Altos pinheiros pareciam cortar o veludo negro que o céu se tornara, uma imensidão de trevas enlaçada com um ponto de luz solitário, a lua estava em seu auge, cheia e brilhante, iluminando parcialmente os lentos passos da menina. Galhos mais baixos arranhavam sua face e corpo, o quebrar das folhas sob seus pés parecia se unir as canções noturnas, era apenas mais uma leve e sinistra melodia em meio aos sonetos daquela floresta assombrada. Um arrepio percorreu-lhe todo o corpo. Uma delicada brisa surgiu para bagunçar-lhe os longos cabelos negros. Seus olhos, amedrontados, saltavam rapidamente em todas as direções, sentia-se observada.
   Uma melodia ecoou atrás de si, a nova musica começara, o som dos galhos se quebrando unia-se a um dueto natural com o farfalhar das folhas e o assobiar do vento entre as árvores. Uma onda de calor surgiu atrás de si, a sua frente, as sombras dominaram o mundo. Virou-se. Pode observar com clareza as chamas lançadas ao ar, beijando as árvores e então descendo ao seu redor, como se numa estranha dança de vida e morte. O animal era gigantesco, as escamas brancas estavam levemente iluminadas pelo fogo que reluzia nas árvores, chamas de um azul intenso, quase vivo. O vento ficava mais forte a medida que as asas se agitavam e o animal descia dos céus à terra. A suavidade e rapidez de seus movimentos, deixou-os frente à frente, humana e dragão. O reflexo da pequena mulher jazia refletido perante a imensidão dourada dos olhos do animal. Silêncio. Até a natureza parecia aquietar-se. O dragão elevou a cabeça, chamas azuis dançaram no ar, cortando o céu. Quando as chamas novamente desceram ao solo, os olhares se encontraram, dragão e mulher, presos nos sentimentos um do outro. 
   As folhas rodopiavam levemente ao seu redor, "Mary Anne", a natureza se silenciara aos ouvidos da menina, "Mary Anne", o vento levava-lhe um leve sussurro, um segredo, "Anne", a menina fechou os olhos por um segundo e desatenta a tudo que acabara de acontecer, tentou concentrar-se apenas no doce som da voz que a chamava, então reconheceu-a. Abriu novamente os olhos, o sol nascia e onde antes estivera o grande animal albino, bem a sua frente, havia apenas um lago de águas calmas e cristalinas. Ficara ali parada por tanto tempo assim? Não, não podia ser. De onde viera aquela paisagem? Onde estava a floresta assombrada? Saíra da tempestade para a calmaria. "Mary Anne, por favor", algo chamou-lhe a atenção, as águas revelaram-lhe um novo reflexo, rapidamente elevou o olhar e pode vê-lo. 
    A brisa brincava-lhe com as roupas, puxando de leve a camisa de linho branco e a jaqueta de couro velho que usava, as roupas eram diferentes, estranhas, para Mary pareciam retiradas de algum velho livro de contos. Os cabelos, de um belo castanho claro, estavam bagunçados, movendo-se junto ao vento, exatamente como ela se lembrava. Porém, os olhos de um azul-escuro, quase negro, que revelavam sempre um brilho de confiança, os quais ela sempre conhecera e amara, agora estavam tristes e sem esperança, não era mais o mesmo garoto de antes, faltava-lhe algo, faltava-lhe alguém. "Len, não pode ser", sua voz saiu fraca demais, ele não a ouviu, Lennox apenas virou-se, afastando-se a passos largos, "Não, Len, não me deixe, não, de novo não", a voz de Mary desaparecera, mas os pensamentos gritavam, "Por favor, Len", as lágrimas corriam por seu lindo rosto, suas forças desapareceram repentinamente, a garota caiu na grama verde que lhe amparou com generosa delicadeza. Viu-o olhando para trás, seus lábios se movimentaram numa silenciosa despedida,"Adeus, pequena Anne". O mundo se tornou negro novamente. 
    Quando acordou, estava em seu quarto, deitada em sua macia e confortável cama, uma voz familiar a chamava, era sua mãe.