sábado, 24 de maio de 2014

A política medieval feminina

     Muitas marcas geradas pela violência contra o sexo feminino ainda estão presentes na atual sociedade contemporânea, que mesmo descrita como igualitária mantém em parte da sua população uma cultura que tende a desvalorizar a mulher e seus princípios. Apesar disso, observa-se que a cada geração elas têm se tornado mais independentes e com maior consciência de seus direitos como cidadãs, tornando sua imagem mais marcante, tanto através de sua presença em campos empresariais, políticos e sociais, quanto na demonstração de sua imagem como um ser humano que independente do gênero deve ser respeitado.
     A linha temporal da valorização da mulher é algo realmente encantador, todas as idas às ruas com milhares de vozes femininas pedindo igualdade e lutando para que as mulheres fossem vistas não como um objeto de desejo mas como pessoas com emoções, necessidades e direitos, sendo assim seguidas de incontáveis conquistas. Mas, infelizmente, muitas mulheres na sociedade atual esquecem-se das lutas que outras passaram para que as crianças da época pudessem hoje se tornar mulheres independentes e respeitadas, e aceitam a condição a violência que vivem, seja em casa, na escola, no trabalho ou nas ruas.
     Mesmo com sua independência conquistada, muitas mulheres sofrem com a violência a qual não precisa ser necessariamente física ou sexual, os casos mais divulgados pela mídia, ela também pode ser psicológica, moral ou patrimonial, entendida como qualquer conduta que fira a dignidade da mulher. Logo, apesar de todo o progresso e do aumento de denúncias contra a agressão, muitas mulheres ainda vivem escondidas de seus direitos, sujeitando-se à violência por medo de se manifestar.
     O aumento do número de queixas é resultado da quebra do costume que a sociedade atual tem de culpar a mulher por algo que ela sofreu. É apresente cultura da inversão dos papéis, onde coloca-se o agressor como inocente e a vítima como causadora da situação, uma realidade com números assustadores para uma época vista como "moderna e humanizada". Segundo a pesquisa do Ipea, cujos dados revelam que 65,1% dos entrevistados concordam de alguma maneira que as mulheres que são agredidas pelos parceiros e continuam com eles "gostam de apanhar", sem levar em consideração nenhum outro fator, como filhos ou mesmo a falta de auxílio da família, que as deixam ser ter para onde ir senão para a casa, onde está o seu agressor, vê-se que em alguns pontos específicos a sociedade contemporânea não se difere tanto dos velhos pensamentos machistas e medievais.
     Ainda conforme o Ipea, 26% das pessoas que deram a entrevista concordam que mulheres que usam roupas curtas, decotadas ou justas merecem ser estupradas. E então, apesar dos protestos no dia 8 de março de 1857, cujas "rebeldes" americanas foram duramente reprimidas, e anos depois, homenageadas pela ONU com a lembrança desta data que passou a ser o Dia Internacional da Mulher,  ainda há muitas lutas que as atuais meninas, futuras mulheres, terão de continuar a fim de que seu corpo deixe de ser visto como um meio de propaganda pública e que sua imagem torne-se livre dos discursos medievais que colocam-na como inferior aos homens, dependente deles.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A natureza humana

     O passar dos anos trás à humanidade inúmeras mudanças, faz com que os avanços tecnológicos e a necessidade de se tornar cada vez mais desenvolvido mova o mundo atual. O desaparecimento de velhos costumes, a adaptação ao ambiente e o encontro de novas preocupações fazem parte do avanço científico global.
     Desde o século XVIII, com a Primeira Revolução Industrial, despontou no homem o desejo do lucro acima de qualquer outro quesito, seja ele ambiental ou ético, social. Assim se deu o passar do tempo, cheio transformações, boas e ruins, até chegar aos dias de hoje com as consequências que todo este processo trouxe.
     Quanto a evolução da humanidade, vê-se que nas áreas cuja relação são os diretos humanos, houve um relativo processo igualitário. Já aos campos naturais, revelou-se o surgimento de uma nova palavra, sustentabilidade, que demonstra indiretamente o quão grande têm sido os problemas acarretados ao longo dos anos.
     O século XXI revelou-se o tempo em que as pessoas apresentam uma preocupação cada vez maior de encontrar soluções para os atuais problemas ambientais. O chamado 'século verde' recebeu como lema a sustentabilidade que, numa definição simples, abrange ações e atividades que visam suprir as necessidades atuais do seres humanos sem comprometer o futuro das próximas gerações.
     Todo o uso constante e inconsciente dos recursos naturais bombardeou o equilíbrio ecológico da Terra, uma vez que estes produtos são retirados e não recebem tempo suficiente para se recompor. Os distúrbios enfrentados pelo planeta levam milhões de pessoas a repensarem seus hábitos, fazerem campanhas e, até os líderes de grandes empresas a buscarem meios mais sustentáveis de produção, mesmo que seu lucro seja levemente afetado.
     A sustentabilidade é um assunto exposto diariamente perante os cidadãos, todavia, o grande problema é a real conscientização de que é preciso poupar a natureza do desgaste excessivo de seus recursos. As pessoas sabem que a natureza sofre e que isso pode trazer danos para a sociedade, desejam fazer algo para colaborar com um desenvolvimento sustentável, entretanto, o estilo de vida escolhido pelo mundo prioriza o conforto à escolhas sustentáveis. Colaborar para a preservação do equilíbrio natural requer a ajuda não apenas de poucas autoridades, mas também dos cidadãos como um todo.

domingo, 4 de maio de 2014

Grafite e expressão

     Para alguns uma linguagem artística, um meio rápido de  veiculação de críticas sem a intervenção da mão midiática de manipulação; Para outros, puro vandalismo. Trata-se do grafite, que em uma definição mais popular é um tipo de inscrição feita em parede. Ou numa descrição mais específica, pode-se entender que esta palavra, graffiti, tem origem italiana e significa "escrita feita com carvão", esse conceito baseia-se na ideia de esta ser uma forma de arte de rua, feita com materiais variados, desde o próprio grafite até tintas e sprays, que exprime ideias, modifica a paisagem urbana.
     O estilo grafiteiro de manifestação teve origem em 1970 com o americano nova-iorquino Jean-Michel Basquiat, reconhecido a partir de então como artista plástico. É importante observar, antes de qualquer argumentação, que há grandes distâncias entre o lambe-lambe, outra forma de referência ao grafite, e a pichação em si. Aquele é uma crítica em forma de desenho, tendo isto como objetivo desde sua criação. Este é apenas um incomodo, uma sujeira usada especialmente no contexto das disputas entre gangues, que usam-no como uma espécie de demarcação de poder e território.
     É certo que, em meio a essa diferenciação, alguns grafiteiros têm encontrado problemas com a lei e com a polícia devido ao seu modo de "arte", mas, uma vez que os direitos do próximo mantenham-se preservados, ou seja, que a pintura seja feita sob a consciência de que será apresentada numa linguagem universal, a visão e a interpretação pessoal, para um público de todas idades, gêneros e etnias, não há grandes problemas. 
     Para muitos, o grafite se tornou uma espécie de cultura, levando seus autores a receber convites para atuar em fachadas externas de monumentos públicos, como museus, e em galerias de arte, como a Tate Modern, em Londres. É uma forma democrática de demonstrar a liberdade de expressão do povo, vez que qualquer cidadão, independente de sua classe social, pode se expressar, seja de maneira artística, para embelezar uma simples parede cinza, ou com o objetivo de fazer uma crítica de interesse público. De mesmo modo, todo cidadão pode ter acesso a essa arte, ao poder de ver o grafite sem precisar de alguma especificidade.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Black Bloc: Defensivo ou ofensivo?

     Marcados pelo uso de roupas pretas e pelo encobrimento da face, os pertencentes ao grupo do Black Bloc usam de táticas de reivindicações antigas, surgidas em 1980, na Alemanha, mas que são uma novidade nos protestos ocorridos no Brasil. Tornou-se um grupo conhecido, cuja repercussão e dinâmica podem ser equiparadas ao Anonymous, outro movimento de rede descentralizada, e que ganhou grande destaque nos protestos brasileiros, tornando-se um símbolo de luta durante a "Revolução dos 20 centavos", ocorrida contra o aumento das passagens de ônibus, em junho de 2013.
    Comumente chamados de "vândalos" são, na verdade, mais um conjunto de cidadãos insatisfeitos, buscando melhorias e reivindicando seus direitos como nacionais brasileiros. Baseados numa estrutura informal, os Black Blocs se demonstram sem hierarquia e  com poder descentralizado, tendo, em suas vestimentas, não somente a finalidade de proteção e anonimato, mas também a demonstração simbólica de que são um único e imenso bloco que atua em conjunto. Os participantes do Black Bloc se organizam, de modo geral, em pequenos grupos de afinidade que podem ou não ser organizados no momento dos protestos, atuando, sempre, de maneira independente dentro das manifestações. 
     Quanto ao seu modo de ação direta, não apresenta um padrão rígido, logo, não  deve-se acreditar na hipocrisia de que  não há, dentro destes movimentos, infiltrados baderneiros, que se aproveitam da ocasião para realizar atividades de furto, roubo e vandalismo. Uma vez que o Black Bloc deixe de ser visto como uma mera organização de vândalos, e que passe a ser analisado como o que verdadeiramente é, uma estratégia de autodefesa contra a violência policial, além de uma forma de protesto baseada na depredação dos símbolos do estado e do capitalismo, tornar-se-á mais efetivo em suas reações.
     Ao passo que as manifestações pacíficas são de agrado à população de uma maneira geral, nem sempre estas recebem a atenção do governo, todavia, em contrapartida, àquelas que optam por uma tática de ação mais direta representam de maneira enfática a revolta da população acerca de suas reivindicações, logo, atraem, com facilidade, a atenção da mídia e dos governantes.  Deste modo, o Black Bloc, apesar de ser considerado um movimento um tanto"radical", é legítimo em suas táticas, buscando, nada mais que seus direitos, e usando destes para expressar sua inconformidade.
     A democracia permite a cada um que exija seus direitos como cidadão e os deveres daqueles que são eleitos para representar o país. A forma de governo com o qual o Brasil é organizado necessita a participação do povo, assim como o voto é um direito obrigatório para os civis, também deveria ser uma regra que aqueles que fossem colocados ao poder se comprometessem a cumprir com suas obrigações.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Leitura na atualidade: superficial ou funcional?

     A era da tecnologia avança num caminho contínuo, no qual, esta torna-se cada vez mais ativa na vida da sociedade, contudo, a influência que os avanços digitais têm gerado podem ser vistos em um todo como sendo apenas positivos ou estes, como acreditam alguns mais conservadores, têm agredido os hábitos culturais da população?
     No campo de desenvolvimento educacional, especialmente se voltado para a língua portuguesa, é facilmente notável a influência gerada pela progressão tecnológica: a necessidade que a internet passa aos seus usuários de rapidez, de realizar tudo momentaneamente, levando a abreviações que, no contexto atual, já tornaram-se parte de uma nova "linguagem", a dos internautas. Porém, é necessário ponderar os julgamentos, uma vez que esta também disponibiliza uma variedade de pesquisas e leituras infinitas àqueles que a utilizam como uma ferramenta de aprendizagem.
     A cada dia observa-se o desenvolvimento das novas gerações e, com estas, as mudanças dos costumeiros hábitos das gerações anteriores, assim, por mais críticas que esta transição receba, ela é um meio necessário para o crescimento da sociedade humana como um todo. A questão da leitura tem sido alvo de muitos comentários, vez que acredita-se que esta tem se tornado mais escassa e superficial com a invasão digital no cotidiano da população. Todavia, é necessário ter em mente que este habito, ler, não se desenvolve somente por livros, vez que a internet é também uma rica fonte de informações.
     O ato de ler nunca foi algo plenamente exercido pela população, primeiramente, pela falta de acesso destes aos livros, obstáculo que foi facilmente vencido pelo arsenal de textos e arquivos em pdf que ficam disponíveis para serem baixados e lidos. E, posteriormente, pela falta de incentivo que abrange boa parte da população. De qualquer maneira, desde os tempos de outras gerações, as leituras mais complexas e longas sempre se destinavam para uma minoria populacional, e, a era atual de tecnologia não muda este fato, apenas torna o acesso menos restrito.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Trote universitário: diversão ou abuso?

   Um dos maiores motivos de comemoração durante a vida estudantil é a tão esperada aprovação na universidade desejada. Muitas festas são organizadas àqueles que conseguem passar no, as vezes tão temido, vestibular. Entretanto, em muitos casos, quando essa celebração ocorre no campo universitário, entre novatos e veteranos, o clima e o relacionamento entre estes não é tão agradável.
   A recepção aos recém-aprovados vai desde de brincadeiras mais saudáveis, que tem o consentimento do aluno que participará do trote e não envolve humilhações, ideologias machistas, sexistas ou racistas, são as tradicionais pinturas no corpo, o velho banho de lama, ou as mais recentes propostas de ações solidárias. Até aquelas em que há o abuso dos veteranos, forçando a participação dos "bichos", expressão comumente usada para se referir aos novatos, e realizando trotes que chegam a ultrapassar os limites morais, trazendo grandes consequências para os estudantes, sejam psicológicas ou físicas.
   Assim como o anti-herói Brás Cubas, personagem que evidencia seu caráter pendente à atos de "dominação" sobre os mais vulneráveis, do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, obra do autor brasileiro Machado de Assis, os responsáveis pela migração da tradição do trote se formaram em direito em Coimbra, como era comum entre membros da elite no século XIX. Assim, este ato foi incorporado às "boas-vindas" nos cursos de direito em São Paulo e Pernambuco, fazendo sua primeira, e não única, vítima fatal em 1831: o estudante Francisco Cunha e Meneses, da Faculdade de Direito de Recife.
   Persistentes até os dias de hoje, os trotes atuam sobre o pretexto de ser uma tradição que proporciona integração entre calouros e veteranos, entretanto, quando organizado de maneira ambígua, voltando-se para humilhações e constrangimentos, tornam-se um reforço à hierarquia interna da faculdade, uma relação de poder onde os estudantes mais experientes dominam sobre os novatos. Portanto, se baseados nesta visão egoísta e separatista de "sábios", veteranos, e "bichos", calouros, os trotes universitários naturalizam a violência, agredindo calouros que serão futuros agressores, gerando, sim, um castigo sem crime.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Bem-vindos a velha Roma

   Os relógios já são, diariamente, programados para reservar aquele momento especial de descanso em frente a televisão. A rotina dos brasileiros é organizada em função dos horários das telenovelas. Seja para assistir sozinho ou acompanhado, na sala confortável de casa ou numa mesa de restaurante, nenhum capítulo pode ser perdido e, se por um acaso isso ocorra, sempre é possível, sem maiores dificuldades, buscar os acontecimentos perdidos em revistas, sites da internet, ou, em homenagem àqueles que gostam de conversar sobre assuntos novelísticos, com os amigos. Uma vez que as telenovelas se tornaram um dos principais meios de entretenimento para a população, deve-se questionar até que ponto estas servem como uma mera recreação e onde começam a influenciar o desenvolvimento social e cultural da sociedade. Desse modo, as telenovelas brasileiras têm sido usadas com a finalidade de conscientização ou  apenas mais um meio de manipulação?
    Embora sejam apresentados vários problemas sociais, as novelas, que conquistaram o privilegiado horário noturno nas telas dos brasileiros, não necessariamente conscientizam a população. A dramatização Romântica e o exagero, quase que barroco, são mecanismos tão fortemente utilizados pelos produtores que chegam ao ponto de, para conseguir um enredo chamativo e cativante, ultrapassar a linha entre os acontecimentos lógicos e a irrealidade. Esta, não no sentido de  apresentar uma alusão folclórica ou mítica, cercando assuntos que, muitas vezes são corriqueiros e polêmicos entre as pessoas, tais como fantasmas, clones, e magia, mas sim no sentido de transcender as próprias leis humanas, chegar a fatos absurdos que passam, muitas vezes, despercebidos pelos telespectadores que têm sua atenção desviada para os temas de maior controvérsia, seja a mulher que traiu o marido, o vilão que foi pego ou que obteve sucesso, a vingança bem sucedida, a briga, ou até mesmo uma personagem em especial.
"Não penso. Não existo. Só assisto."
     Em realidade, as telenovelas poderiam, se utilizadas da maneira correta, sim, ser um bom veículo de conscientização, especialmente devido a sua alta repercussão. Porém, com toda a overdose melodramática que apresentam, estas ficam cada vez mais próximas de um meio de alienação, assemelhando-se com a velha política de pão e circo, fundada, oficialmente, pelos líderes romanos, que a utilizavam para lidar com a população em geral, mantendo-a fiel à ordem estabelecida e conquistando seu apoio.  A ideia em que essa política se baseava consistia, basicamente, no ato de desviar a atenção da população dos núcleos principais, política e problemas na sociedade, para núcleos humorísticos, na época, espetáculos de gladiadores, atualmente, recursos variados, futebol, televisão, mídia. Logo, a alienação, em muitos casos, acaba tornando-se involuntária, sempre indesejada, mas que, como um tímido visitante, vai chegando aos pouquinhos e se infiltrando na consciência da população.
      Em suma, não só as telenovelas, mas também toda a mídia, foram corrompidas pela soberba e desejo de poder dos que estão no comando do Brasil. País este que, segundo a revista inglesa The Economist, é "Um país de não-leitores", tendo como um principais fatores que desencorajam a leitura o fato dos livros serem tão caros. Mas, realmente, quando comparada com a televisão, a leitura é um hábito difícil de se formar. Os livros, que deveriam ser um incentivo do governo, competem com centenas de comerciais que anunciam, todos os dias, um novo capítulo da novela. Então, o que é apresentado aos brasileiros: Pão e circo ou educação?  

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Nada se perde, tudo se transforma

     Ensinados desde o berço, os valores morais são responsáveis pela manutenção da ordem entre as pessoas, sendo impostos pela sociedade em que se vive e variando em alguns preceitos básicos de acordo com a cultura local. Independentemente de quaisquer afirmações acerca da moral e da ética, vê-se em comum a finalidade geral que pode ser definida como "respeito à vida". A consciência dos valores morais não morre e muito menos pode ser destruída, ao passo que é moldada conforme as necessidades e influências do convívio com os demais grupos sociais, uma vez que a vida não é individual, mas sim coletiva, dependente de outras.
     Passados de geração em geração, os princípios da moralidade, ou a sua falta, são evidenciados em atitudes diárias do cotidiano. Esse é provado através de escolhas, boas ou ruins, pensadas ou impulsivas. Segundo Immanuel Kant, o homem é um ser que se auto-regula a si mesmo e que se auto determina em liberdade, tendo poder absoluto sobre si e sendo, ao mesmo tempo, Legislador e Súbdito, assim, observa-se que, segundo o filósofo, o próprio ser humano delimita sua liberdade através da Razão e tem por juíz a sua própria consciência. Contudo, na sociedade, cada ato considerado por ela impróprio é julgado e punido perante as leis sociais vigentes. 
     Uma vez que o livre arbítrio encaixou-se na humanidade, nós, seres humanos, aproveitamo-nos da autonomia de pensamento para condenar os demais antes de analisarmos nossas próprias atitudes. Logo, deveríamos agir com a inocência e honestidade das crianças, que em pequenas atitudes demonstram mais sabedoria e compaixão que muitos adultos que, por ganância, erram, roubam, enganam, e não desejam mudar. Cometem crimes como a falta de amor pelo próximo, que leva a um homicídio, ou a irresponsabilidade de dirigir alcoolizado, que coloca vidas em perigo, ou ainda a soberba e a falta de respeito, que leva a corrupção e ao desvio de dinheiro publico.
     Contudo, nós vivemos em grupos, sociedades, e por isso um erro não é exclusivamente de uma única pessoa, a responsabilidade é de todos. Se há um político corrupto, é porque o povo o colocou lá, então, convém ao povo encontrar uma solução, seja uma ONG, uma reeleição, ou maior vigor quanto a ficha limpa. Assim é a ética, um instrumento indispensável para o bom funcionamento da sociedade e integração dos indivíduos nela. Valor moral é respeito à vida, nossa e de todos.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A luz dos olhos meus

     Os olhos... Dizem que são as janelas da alma, mas talvez sejam mais do que isso, talvez também tornem-se uma vitrine do coração, um retrato, você. Quem é você? Quem sou eu? Sou tudo aquilo que me torna mais eu, sou meus olhos, assim como tu és o seu olhar. Há olhares, e olhares, aquele é simples, é fácil, é físico, este é complexo, este, é você. 
     O que teus olhos já viram, pessoas ou vidas? Como são teus olhares, positivos ou negativos? Tens esperança ou apenas vive a cada a dia? Tudo o que és hoje, é um conjunto daquilo que teus olhos já viram. Tu enxergas ou vês a vida ao seu redor? Alguns enxergam, outros veem, mas qual seria a diferença? Bem, esta é a distância entre os olhos físicos e o coração sentimental.
     Há sempre um abismo de entendimentos em um texto escrito, pois só existe o auxílio de palavras que sem os olhares, o conjunto de expressões e interações que diferenciam as conversas, permanece imutável o risco de que tal desabafo não seja lido com os mesmos sentimentos com os quais fora escrito. Bem, talvez este seja o meu desabafo e as possibilidades de entendimento estão em suas mãos, faça bom uso delas. 
   Quando a luz dos olhos meus e as luz dos olhos teus resolvem se encontrar.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

II. A chegada

   E agora o Pat vai dizer como odeia nozes. Meus pensamentos vagavam diante da conversa descontraída de meus colegas. A Olly vai mexer de leve no cabelo. Conhecia-os tão bem, e a tanto tempo, que já era capaz de prever suas reações diante de uma ou outra situação.  E agora chega a parte em que ela fala sobre o delicioso bolo de nozes que sabe fazer. Mas, afinal, qual era o sentido de tudo isso? Eu deveria sentir-me feliz, simplesmente por ter bons amigos e diversas oportunidades de uma longa conversa. Pat vai fazer aquela carinha de quem não consegue montar um quebra-cabeça complicado e sugerir um bolo de chocolate. Tudo me parecia tão entediante e monótono, como se assistisse ao mesmo filme pela quarta vez seguida. 
    Os sonhos com Len tornavam-se cada vez mais frequentes, mas a minha esperança de encontra-lo ficava cada vez mais fraca. Não sabia mais o que pensar daquilo, e não havia ninguém a quem eu pudesse contar sem passar por uma grande idiota. Olly vai rir, aquele riso delicado e alto, característico dela. Uma imagem me chamou a atenção: era uma mulher, simples, jovem, bela, mas havia algo estranho em seu olhar, ele parecia me prender numa espécie de encanto. Não havia nada de diferente nela, exceto pelo olhar, claro, mas não havia nenhuma ameaça em suas feições, ao contrário, apesar da distância de uma pequena praça silenciosa entre nós, era possível ver que seu rosto era delicado, com traços bem femininos e comuns. Pat vai começar a rir também, um riso mais grave e escandaloso. Apenas sorrio, vendo a felicidade simples de meus amigos.
  A estranha estava parava, mais a diante, ainda no mesmo lugar, nos observando atentamente. Encarando-nos. Não me lembro de onde ela veio, mas me parecia que as pessoas simplesmente não a viam. Tinha os finos cabelos louros, próximos a altura do ombro, e usava um leve vestido marrom-claro, não chamava muito a atenção, mas todos a ignoravam. Ela simplesmente aparecera, causando-me uma leve sensação de mal pressentimento. Não achei que seria adequado interromper o momento de meus amigos com minhas implicâncias infantis. Um rápido arrepiou percorreu meu corpo, assim que sustei seu olhar.
     - Anne? Você tá bem? - Ouvi a voz de Olly atrás de mim. - Parece meio desanimada hoje...
   O suave som de sua voz me retirou dos pensamentos alheios. Levei um breve segundo para me concentrar no que ela dizia e realmente entender a pergunta repentina. Virei-me para olhá-la.
    - Só estou pensando, Nicolly, está tudo bem - De repente me senti um pouco deslocada daquele lugar, minha voz parecia mais fraca e distante. Dei um leve sorriso. - Não há nada com que se preocupar. - Uma brisa tocou meus cabelos e tudo pareceu movimentar-se.
    - Mary! Ai, meu Deus! Ajudem, alguém!- Os gritos de Patrick, são a ultima coisa de que me lembro daquele dia. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

I. Os sonhos

    Caminhava calmamente, observando com fascinação a paisagem ao seu redor, não sabia onde estava e muito menos como havia chego até ali. O lugar revelara-se encantador e sombrio ao mesmo tempo, um paradoxo perfeito entre a realidade e os sonhos. Altos pinheiros pareciam cortar o veludo negro que o céu se tornara, uma imensidão de trevas enlaçada com um ponto de luz solitário, a lua estava em seu auge, cheia e brilhante, iluminando parcialmente os lentos passos da menina. Galhos mais baixos arranhavam sua face e corpo, o quebrar das folhas sob seus pés parecia se unir as canções noturnas, era apenas mais uma leve e sinistra melodia em meio aos sonetos daquela floresta assombrada. Um arrepio percorreu-lhe todo o corpo. Uma delicada brisa surgiu para bagunçar-lhe os longos cabelos negros. Seus olhos, amedrontados, saltavam rapidamente em todas as direções, sentia-se observada.
   Uma melodia ecoou atrás de si, a nova musica começara, o som dos galhos se quebrando unia-se a um dueto natural com o farfalhar das folhas e o assobiar do vento entre as árvores. Uma onda de calor surgiu atrás de si, a sua frente, as sombras dominaram o mundo. Virou-se. Pode observar com clareza as chamas lançadas ao ar, beijando as árvores e então descendo ao seu redor, como se numa estranha dança de vida e morte. O animal era gigantesco, as escamas brancas estavam levemente iluminadas pelo fogo que reluzia nas árvores, chamas de um azul intenso, quase vivo. O vento ficava mais forte a medida que as asas se agitavam e o animal descia dos céus à terra. A suavidade e rapidez de seus movimentos, deixou-os frente à frente, humana e dragão. O reflexo da pequena mulher jazia refletido perante a imensidão dourada dos olhos do animal. Silêncio. Até a natureza parecia aquietar-se. O dragão elevou a cabeça, chamas azuis dançaram no ar, cortando o céu. Quando as chamas novamente desceram ao solo, os olhares se encontraram, dragão e mulher, presos nos sentimentos um do outro. 
   As folhas rodopiavam levemente ao seu redor, "Mary Anne", a natureza se silenciara aos ouvidos da menina, "Mary Anne", o vento levava-lhe um leve sussurro, um segredo, "Anne", a menina fechou os olhos por um segundo e desatenta a tudo que acabara de acontecer, tentou concentrar-se apenas no doce som da voz que a chamava, então reconheceu-a. Abriu novamente os olhos, o sol nascia e onde antes estivera o grande animal albino, bem a sua frente, havia apenas um lago de águas calmas e cristalinas. Ficara ali parada por tanto tempo assim? Não, não podia ser. De onde viera aquela paisagem? Onde estava a floresta assombrada? Saíra da tempestade para a calmaria. "Mary Anne, por favor", algo chamou-lhe a atenção, as águas revelaram-lhe um novo reflexo, rapidamente elevou o olhar e pode vê-lo. 
    A brisa brincava-lhe com as roupas, puxando de leve a camisa de linho branco e a jaqueta de couro velho que usava, as roupas eram diferentes, estranhas, para Mary pareciam retiradas de algum velho livro de contos. Os cabelos, de um belo castanho claro, estavam bagunçados, movendo-se junto ao vento, exatamente como ela se lembrava. Porém, os olhos de um azul-escuro, quase negro, que revelavam sempre um brilho de confiança, os quais ela sempre conhecera e amara, agora estavam tristes e sem esperança, não era mais o mesmo garoto de antes, faltava-lhe algo, faltava-lhe alguém. "Len, não pode ser", sua voz saiu fraca demais, ele não a ouviu, Lennox apenas virou-se, afastando-se a passos largos, "Não, Len, não me deixe, não, de novo não", a voz de Mary desaparecera, mas os pensamentos gritavam, "Por favor, Len", as lágrimas corriam por seu lindo rosto, suas forças desapareceram repentinamente, a garota caiu na grama verde que lhe amparou com generosa delicadeza. Viu-o olhando para trás, seus lábios se movimentaram numa silenciosa despedida,"Adeus, pequena Anne". O mundo se tornou negro novamente. 
    Quando acordou, estava em seu quarto, deitada em sua macia e confortável cama, uma voz familiar a chamava, era sua mãe.       

domingo, 24 de novembro de 2013

Estatuto do deficiente

   A idealização de uma sociedade pode até ser vista como uma utopia, mas a busca pela minimização dos efeitos da discriminação populacional e da ignorância do governo acerca das necessidades dos cidadãos é algo palpável. São diversos os grupos de brasileiros que sofrem com tais efeitos, entretanto, destacam-se aqueles que são portadores de alguma necessidade especial e que são atingidos tanto pelo excessivo sentimentalismo das demais pessoas, que ora são dispostas de dó e compaixão e ora apresentam uma certa perversidade em suas palavras e olhares, quanto pela falta de estrutura física que o país dispõe para recebê-los.
   De acordo com a Constituição brasileira, cabe aos órgãos e as entidades do Poder Público assegurar às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, individuais e sociais.  Porém, o governo tem feito um verdadeiro exercício teatral a fim de alegar sua preocupação com tal parcela da população e mascarar o verdadeiro tratamento que estes deveriam receber. A construção de rampas em lugares públicos e  a exigência de vagas especiais para deficientes são bons projetos, mas tornam-se insuficientes sozinhos, uma vez que não suprem todas as necessidades específicas dos portadores de necessidades especiais.
   Um grande obstáculo que se opõe não somente ao cotidiano dos portadores de deficiência, mas também apresenta um risco a toda população, são as próprias calçadas brasileiras que, muitas vezes, encontram-se em péssimo estado: estreitas, desregulares e esburacadas. Mais uma vez, segundo a Constituição, todo cidadão brasileiro tem direito à liberdade, a qual compreende, entre outros aspectos, a faculdade de ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais. Assim, percebe-se que este, nos dias atuais, tornou-se um direito de facilidade inacessível a todos. Então, será mesmo necessário que uma pessoa com deficiência espere pela ajuda de um terceiro, podendo ainda ter seu direito ao respeito transgredido, violando sua integridade física, psíquica e moral, ou o governo deveria disponibilizar recursos dignos para que estes cidadãos usufruam plenamente de seus direitos?
   Considera-se que ainda há um enorme caminho a ser percorrido para que a sociedade se torne realmente igualitária no quesito de acessibilidade aos direitos de um cidadão. Porém, cada passo é uma evolução, e ainda há muitos projetos a serem desenvolvidos e aplicados, tais como: impor, nos meios sociais, a leitura em braile para os deficientes visuais, disponibilizar de aulas para que a população aprenda a conversar na linguagem de libras, provisionar ônibus adaptados para cadeirantes e, especialmente, a criar novos melhores planos de saúde voltados para a reabilitação e integração social dessas pessoas.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quando crescer, estica

   Até pouco tempo, acreditava-se que uma criança gordinha era sinônimo de uma criança saudável. Hoje em dia, entretanto, as crianças vem sofrendo com os elevados índices de sobrepeso. De acordo com os dados do IBGE, 34,8% das crianças brasileiras se enquadram no preocupante campo de obesidade infantil.
   As grandes causadoras do excesso de peso são, em segundo lugar, o novo estilo de vida baseado no sedentarismo, uma vez que as novas gerações não desejam as típicas brincadeiras de rua que exigem esforço físico para correr, pular e se esconder, contudo, preferem ficar dentro de casa com um vídeo game ou um bom computador. Em primeira posição, como grande causadora da obesidade, encontra-se, destacadamente, as mudanças dos hábitos alimentares. 
   Ainda de acordo com o IBGE, calcula-se que 89% desses pequenos brasileiros ingerem açucares e gorduras além do nível considerado saudável pelos médicos. Decerto que ainda há bordões muito comuns entre os familiares de crianças em sobrepeso, como "Quando crescer, estica", que revelam a inconsciência dos pais acerca de que a obesidade não só é incomum durante o desenvolvimento infantil, como também pode trazer diversos riscos a saúde, em outras palavras, doenças respiratórias e ortopédicas, colesterol alto, hipertensão arterial ou diabetes tipo dois.
   No entanto, a culpa acerca da obesidade dos pequenos não deve ser atribuída somente aos pais, obviamente que ainda há a necessidade de desmistificar o indícios restantes da velha cultura de que as crianças acima do peso estão bem alimentadas e saudáveis. Todavia, a responsabilidade por tais problemas de saúde nas crianças deve também ser atribuída ao governo, que não mantém uma fiscalização adequada nas escolas públicas para controlar os alimentos disponíveis nas cantinas, as áreas de lazer acessíveis para a interação desses  e as aulas de educação física, que devem ser mais práticas do que teóricas. 
   Em suma, também é necessário considerar as artimanhas da indústria alimentícia que usa da mídia para suprir suas necessidades de venda a um fácil alvo consumidor, neste caso, as crianças, que são facilmente levadas a desejar bolachas e salgadinhos de seus personagens favoritos. A regra desse comercio especifico é: convença as crianças a desejar, e elas convencerão os pais a comprar. Inquestionavelmente, o atual mundo capitalista faz com que pais e crianças sejam diariamente bombardeados com as poluições extremistas dos jogos de marketing, onde a venda e a compra se tornam mais importantes que a saúde da própria sociedade.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Terceira idade, uma sabedoria ignorada

   O estatuto do idoso foi organizado de modo a prever as necessidades para uma vida digna aos idosos na sociedade brasileira, ademais, com aumento da expectiva de vida das pessoas, essa atitude tem se tonado indispensável para a terceira idade. Em contraste com a realidade vivida por essa parcela da população, há o surgimento de um novo cenário de preconceito que, de uma certa maneira, afasta-os de uma participação ativa nos núcleos rotineiros da vida numa sociedade. Em suma, os idosos vem conquistado cada vez mais sua independência e, especialmente, seus direitos que, apesar de defendidos por lei, são frequentemente negligenciados e esquecidos.
   Em  pleno auge do modelo capitalista, as pessoas se acostumaram aos conceitos de individualismo e produtividade, buscando, na maior parte de seus negócios, apenas o benefício próprio, de modo que isso também vem sendo introduzido aos centros sociais. Os idosos, que antes ajudaram a construir o Brasil atual, agora são descartados por, supostamente, não apresentarem o mesmo vigor juvenil de anos passados, nem tendo, ao menos, as chances necessárias para demonstrar o contrário. Todos os dias, os idosos são isolados dos eixos de relações públicas, e até mesmo da formação de novos laços familiares.
   Logo, torna-se cada vez mais comum as notícias que revelam o abuso financeiro, o desrespeito e a violência física àqueles de idade avançada. A valorização do idoso deve começar com cuidados dentro de casa, porém não deve ser contida somente nas esferas familiares. O governo brasileiro também é responsável pelo bem-estar dos idosos, sendo de sua obrigação não apenas oferecer um adequado sistema de saúde pública,  mas também áreas de lazer, como academias ao ar livre e parques com segurança apropriada, assim como a promessa de uma rígida fiscalização quanto as adaptações do comercio e das casas institucionais que se prontificam a cuidar daqueles que pertencem a terceira idade. 
   Seja em casa, ou num asilo, seja no comercio que não oferece uma atenção qualificada para  o atendimento destes anciãos, numa vaga especial não respeita nos estacionamentos, ou na rede de saúde publica que não apresenta suporte suficiente para suprir as necessidades básicas de saúde, os idosos vem sendo desmerecidos de todo o tempo e esforço que utilizaram, em seu auge juvenil, para colaborar com a formação de uma sociedade justa e um ambiente familiar em equilíbrio. Decerto, o envelhecimento é inevitável, e as pessoas devem estar estruturadas para receber essa ordem natural.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A força da mídia e a cultura do medo

  Atualmente, a mídia se tornou o maior e mais influente veículo de informações para a sociedade, tornando-se uma importante fonte de manipulação para aqueles que retém o seu comando. Ao longo de sua história, é possível observar o extremo uso do sensacionalismo para vencer a luta daqueles que buscam audiência e Ibope. Eis que, com tanto poderio em mãos, a cultura do medo tem se tornado uma tendência de escape, uma alienação da qual a mídia e suas parcerias conseguem retirar benefícios.
   A excessiva valorização de casos isolados de violência geram um déficit de atenção a problemas que realmente mereciam destaque, tais como a desigualdade social, a falta de educação ou saúde para todos. Nesse contexto, é perceptível que há uma ostentação midiática que, de maneira rápida e eficiente, alcança nossas inseguranças emocionais, assim, mesmo não sabendo qual a veracidade do que está sendo veiculado pela mídia, o público pode acreditar que o índice de criminalidade está aumentando e superestimar o medo de serem vítimas de crimes violentos.
   Todo jornalista sabe que crimes impetuosos são eventos raros e extraordinários, mas isso, na comparação com os demais crimes. Eis que, grande parte da mídia extrai sua audiência da dramatização de situações isoladas, como o assassinato em Realengo, ocorrido em 7 de abril de 2011, ou o caso de Eloá Cristina, o mais longo sequestro em cárcere privado já registrado pela polícia do estado brasileiro de São Paulo. Ambos os casos obtiveram enorme repercussão nacional, comovendo toda a população.
   É possível observar que realmente o Brasil apresenta um elevado grau de violência quanto ao quesito armas de fogo. O número de homicídios por tiros, no ano de 2010, chegou a um total de 36.792 vítimas. E de acordo com o Censo 2010, são cerca de 16,2 milhões de brasileiros que vivem em condições de extrema pobreza, eis que nessas circunstâncias pode-se observar a alienação gerada pela mídia para desviar a atenção da população dos reais e mais importantes problemas, e encontrando uma maneira de se beneficiar disso.  

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Dar o peixe ou ensinar a pescar?

  O elevado número de brasileiros vivendo em condições de extrema pobreza gera impactos impossíveis de se ignorar. Segundo os dados do Censo 2010, divulgado pelo IBGE, são cerca de 16,2 milhões de brasileiros sobrevivendo apenas com uma renda mensal abaixo de R$70, aproximadamente, um pouco mais de R$2,00 diários. Portanto, que serviços o governo deve oferecer para essas pessoas e quais são as melhores medidas para gerar um "Brasil Sem Miséria"? 

  Pode-se perceber, apenas com uma análise parcial, que grande parte da pobreza no Brasil está atrelada a pouca escolaridade dos trabalhadores que, na grande maioria dos casos, são obrigados a aceitar trabalhos cujo rendimento é baixo e instável. A solução para erradicar ou ao menos amenizar essa situação pode parecer óbvia e tentadora: Investir em cursos profissionalizantes e numa melhora da qualidade de ensino no sistema de educação pública, além de gerar novos empregos direcionados a essa especifica e, muitas vezes, ignorada parcela da população. Aos olhos de muitas pessoas, a ideia de investir na educação e em gerar novas oportunidades de trabalhos é considerada bem mais sensata do que criar programas de transferência de renda,  e de gêneros semelhantes ao Bolsa Família.

   É bastante claro que, realmente, a sociedade brasileira merece melhores oportunidades para ascender socialmente e buscar melhorias em sua qualidade de vida. Entretanto, a grande questão não é apenas entender qual o grande causador da miséria brasileira, mas descobrir como aplicar a solução mais adequada. Visto que os investimentos na educação e na formação de trabalhadores especializadas são projetos feitos a longo prazo e que, até que consigam ser corretamente elaborados e aplicados, a melhor maneira de amenizar os impactos da pobreza é o oferecimento de programas sociais. Concluímos  então, que o melhor a fazer é dar o peixe enquanto ensinamos a pescar.

domingo, 21 de abril de 2013

Escolhidos

    Manhã de janeiro, o dia começara bem, nenhum sinal de chuva ou nuvens carregadas, o sol da manhã aquecia a alma e levantava os ânimos, enquanto uma leve brisa brincava com as águas do mar. Eu estava à proa daquele pequeno navio, com meu uniforme de capitão, apenas observando o embarque dos passageiros. Hoje seriam doze pessoas, uma tripulação um tanto diferente das que eu estava acostumado, visto que, sempre viajo com grupos de famílias ou amigos e, desta vez, os tripulantes mal se conheciam. Algo dentro de mim dizia que hoje o dia não seria bom, tentando convencer-me à adiar aquela viagem, porém, afastei tais pensamentos, concentrando-me, apenas, na rota que teríamos pela frente. 
    Primeira tarde juntos e eu já conhecia, de vista, toda a minha tripulação, cada um carregando suas próprias mágoas e fardos, não passavam de pessoas vazias, marcadas pelas angústias da vida, o mais triste é que eu era um deles. Nos olhares nada havia, exceto orgulho e tristeza, salvo aqueles pequenos olhos azuis, os mais vivos e alegres que eu já vi em toda minha vida, a dona deles, uma pequena e falante criança de oito anos, que dizia se chamar Rose. Talvez a única capaz de despertar a alegria nos demais, o que foi acontecendo, devagar, nas poucas oportunidades em que ela conseguia fugir da visão do pai e ir até as cabines ou ao convés, não importando quem fosse, ela teria intermináveis perguntas, e infinitos argumentos para fazer as pessoas sorrirem. Ela não se importava com a idade, cor, profissão ou passado de cada um, apenas queria vê-los felizes, era o pequeno anjo que alegrava aquele navio.
    A paz que a presença daquele anjo em forma de criança me trazia era algo inexplicável, porém, parece que a natureza, com todo seu egoísmo, não gosta de dividir sua ternura. A noite se aproximava, e aquela sensação ruim voltou a tomar conta de meus pensamentos, então, poucos minutos depois, o operário das máquinas surgiu na cabine, aqueles olhos cinza, que sempre demonstraram indiferença aos sentimentos, agora estavam tomados pelo medo, sua voz, tremula, revelava que algo estava errado: "Ca-ca-capitão, à-àgua, àgua, o casco, há um vazamento, a casa de máquinas não vai aguentar, o navio vai afundar, não temos mais que uma hora". Aquilo foi como uma facada em meu peito, não pelo navio, mas pelas vidas que se perderiam, havia somente um barco salva-vidas.    
    "Meu Deus, me ajude! O que farei agora? Droga, vidas estão em risco, oh, Senhor, me ajude!", foram os únicos pensamentos que ecoaram em minha mente, mas eu era o capitão daquele navio, deveria fazer algo, afinal, a falta de um barco salva-vidas era minha culpa. Mantive-me calmo e, por fim, consegui alinhar os pensamentos: "Vá você, operário, escolha os tripulantes mais fortes e experientes para lhe auxiliar com o barco, não estamos muito longe da costa, vão rápido e chamem ajuda, eu vou ficar e acalmar os demais.". Assim foi feito, ao longe, o barco salva-vidas ficava cada vez menor, se salvaram: um operário, um homossexual, um professor, um político, um cientista, um estudante universitário, e o pai de Rose.
     No navio, ficaram, além de mim, uma senhora de aproximadamente setenta anos, um paraplégico, um sacerdote, uma prostituta e nosso pequeno anjo, Rose. Todos estavam apreensivos, acolhidos no convés, o medo revelado em cada olhar. Escuta-se uma doce voz, uma criança falava: "Meu papai me disse uma vez que, quando morremos, nos tornamos estrelas, não tenho medo de ser uma estrelinha, por que vocês estão com tanto medo?", todos ficaram sem reação, uma criança conseguiu dizer algo que todos sabíamos, mas nenhum de nós queria admitir: Era o fim. Nuvens negras fecharam o céu, uma tempestade se aproximava, então, nos abraçamos, e ficamos ali, parados, em silêncio, procurando conforto nos braços um dos outros, raios caiam a nossa volta, aguardávamos o fim.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Milhares de léguas

     Mais uma noite de sono mal dormida, os pesadelos estavam ficando cada vez mais frequentes, desta vez, sonhei com a morte, estava em um quarto mal iluminado, um corpo jazia suspenso no centro, eu me aproximei e consegui ver seu rosto, era um rapaz, jovem, com olhos cinza e sem vida, suas feições marcadas pela dor e pela tristeza, ao seu lado, encontrava-se um homem, alto, usava um capuz, de modo que escondia seu rosto as sombras, uma carta estava em suas mãos: “Queria me desculpar, vocês não tem culpa de nada. Eu estava sozinho e só vinha esse pensamento de morte. Eu não queria fazer isso, mas era uma tentação terrível em mim. Perdoem-me”, não consegui ler o nome que assinava o bilhete.
     Manhã de segunda-feira, um dos dias mais depressivos da semana e, lá estava eu, no ponto, esperando o ônibus que, para minha angústia, demorava a aproximar-se. Não queria chegar atrasada na universidade, então, olhava nervosamente para o relógio, com a inútil esperança de que isso fosse apressar o motorista. Estava ali à apenas alguns minutos, o sol começara a nascer, até que, finalmente, ouço um barulho ao longe, o circular apareceu no final da rua. A porta do ônibus se abriu e um homem, que me parecia estranhamente familiar, desceu. Poucas pessoas circulavam tão cedo, de modo que o ônibus estava vazio. 
     Distraída, algo chamou minha atenção, um livro, abandonado sobre o banco. Aquilo despertou minha curiosidade, olhei em volta, ninguém parecia ser o proprietário daquelas poucas páginas encadernadas, peguei-o e comecei a folheá-lo, um poema estava claramente destacado: Despedindo-se de um amigo, de Erza Pound.  Li atentamente cada estrofe, tentando entender porque alguém destacaria com tamanho cuidado aquele poema em especial. Assim que passei os olhos pelo ultimo verso, uma brisa mais forte entrou pela janela, virando algumas páginas e revelando um pequeno bilhete, assinado por um tal de Fausto, que pedia ao amigo que não cometesse nenhuma besteira e pensasse em todas as pessoas que o amava. Não tive tempo de refletir mais, meu ponto havia chegado, estava cheia de perguntas, então, movida pela curiosidade, levei o livro.
     A péssima noite de sono veio cobrar suas dívidas durante as aulas, fiquei muito grata por, finalmente, ter acabado. O ônibus só passaria daqui uma hora, tinha tempo o bastante para analisar o livro, peguei-o novamente e, dessa vez, percebi algo novo: A primeira página recebia um carimbo, que já estava desgastado com o tempo, mas era um símbolo inconfundível, o livro fora retirado da biblioteca da universidade! Rapidamente procurei a bibliotecária, dona Odete, uma senhora muito simpática, que certamente me ajudaria. 
     "Lamento, querida, mas esteve livro foi retirado há exatamente um ano atrás, 13 de janeiro de 1998, por um ex-aluno, Fausto Oliveira", aquela doce voz ecoou em meus ouvidos, e um aperto em minha consciência a acompanhou, muita coisa poderia ter mudado em um ano, acredito que minha expressão deve ter demonstrado minha agonia pois aquela senhora me olhava com preocupação: "Há algo que queira me contar, pequena?" E eu contei, disse-lhe tudo, o sonho, o livro, o bilhete, tudo. Ela apenas escutou e, ao final, levantou-se, colocou a mão em meu rosto, e saiu, quando voltou trazia um jornal, entregou-me com olhos tristes, então disse: "18 de janeiro, Rodrigo, ex-aluno e meu neto, tirou a própria vida, enforcando-se em seu apartamento. Fausto, foi quem encontrou o corpo", lágrimas escorriam em seus olhos, ela respirou fundo, dando uma pequena pausa, como quem não aguentava mais continuar aquela conversa: "O jornal que lhe entreguei, a matéria principal traz detalhes da época, se quiser, pode ficar com ele..", então, ela foi embora.
     Voltei para casa, meus pensamentos retornavam no tempo, não sabia o que dizer, nunca me aproximei tanto da morte. Nunca sofri esse tipo de perda e, sempre que ouvia ou lia algo parecido, eram de pessoas que eu nunca conheci, não tinha nenhum tipo de afeto, mas, apesar de nunca ter encontrado esse rapaz, eu chorei, lamentei pelo sofrimento que vi nos olhos daquela senhora.  E fiquei ali, deitada, até adormecer, desta vez, não sonhei.     

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Lua


     As luzes do apartamento estavam apagadas, a pouca iluminação vinha da televisão muda, eu estava deitado no sofá, pensando em meus futuros atos. Uma brisa suave entrou pela janela, a sala pareceu ficar mais fria e um arrepio rápido percorreu todo meu corpo. Estava na hora, peguei uma jaqueta qualquer e saí, não queria me atrasar. O restaurante em que marcamos ficava a poucos quarteirões do meu prédio, resolvi ir andando. A lua destacava-se, cheia, no céu negro, parecia ter um tom avermelhado, o que me trouxe boas lembranças. As ruas estavam desertas e, algumas, pouco iluminadas, meus passos alternavam, ora lentos demais, ora rápidos demais. Uma garoa fina começou a cair, completando a cena depressiva e melancólica em que eu estava, tudo indicava que seria uma noite fria, e algo me dizia que também seria longa e inesquecível.
     A garoa havia parado, uma leve neblina tomara seu lugar. Estava numa rua mal iluminada, várias árvores compunham o cenário, de longe, podia se ouvir o farfalhar das folhas. Fechei os olhos por um instante, um vento aconchegante soprou em meu rosto e, novamente, um arrepio percorreu meu corpo, afastei todos os pensamentos, todo o passado que pesava sobre meus ombros e, por poucos segundos, senti-me limpo, como não me sentia há muito tempo. Mas, as mágoas me lembraram de como minhas mãos eram sujas, e que não merecia aquele momento de paz, tinha planos a cumprir, abri os olhos novamente. Alguém caminhava em minha direção, era ela, Angel, minha atual namorada. A pouca luz deixava aquele rosto delicado ainda mais bonito, o vento parecia brincar com seus longos cabelos castanhos, enquanto um sorriso tímido surgia em seus lábios, ela se aproximou e olhou em meus olhos, ah, aqueles olhos verdes,  tão lindos, resplandeciam toda sua inocência.
    "Porque meu amor está aqui, numa rua deserta, caminhando tão solitário e tristonho?" ela perguntou, soltando uma pequena risada. Eu nada podia fazer, se não, entrar naquela brincadeira infantil, "Estava indo encontrar minha pequena, mas, parece que ela me achou primeiro", respondi, com sorriso forçado, fingindo ser um bobo apaixonado. "Mô, o restaurante tá fechado,  e agora?", ouvi aquela doce voz novamente. Droga, tudo estava planejado, agora, não seria possível seguir meus planos, mas, pensaria em algo mais tarde, por enquanto, apenas sorri e disse: "Ah, tenho uma ideia, então, que tal irmos para meu apartamento? Podemos pedir uma pizza, que tal?", ela apenas assentiu com a cabeça. O caminho até meu apartamento foi rápido, andávamos de mãos dadas, em silêncio, e com passos largos.
     Assim que entramos, levei-a até a varanda, com a desculpa de observarmos as estrelas, eu precisava ganhar tempo, precisava pensar em algo rápido. "Está chuviscando, de novo, a noite parece tão triste hoje, nem há estrelas no céu... Bem, a mesma pizza de sempre, meu amor?", enquanto Angel falava, um estalo veio em minha mente, já sabia o que fazer, "A mesma de sempre, pequena..", respirei fundo, pensando com cuidado no que iria dizer, enquanto andava em  sua direção, "Sabe, uma vez um amigo me contou que, às vezes, a lua fica nessa cor, meio avermelhada, em memória do sangue de vítimas inocentes, mas, eu nunca entendi porque a lua faria isso, afinal, todos somos culpados, e a única coisa que temos em comum é a morte..", quando ela percebeu já era tarde demais, minhas mãos estavam envoltas em seu pescoço e sua boca, ela se debatia com força e tentava gritar, mas, dessa vez fora ainda mais fácil do que com a anterior, era a terceira morte só esse mês. Em pouco tempo ela parou, desistiu da vida, talvez uma boa escolha, mas, prefiro quando elas lutam ou gritam, a emoção é maior. Beijei aqueles lábios já sem vida, “Bons sonhos, meu amor”, foram minhas últimas palavras para ela.